GRANDES JOGADORES – DON BRADMAN (1908–2001)
Hoje começarei nesse blog, uma série de textos sobre a vida de grandes jogadores de críquete da história, e vou começar hoje não apenas com um grande jogador, mas o maior da história da Austrália, cujo nome todos que gostam de críquete conhecem, Don Bradman. Infelizmente ele não jogou nenhuma Copa do Mundo, pois ele parou de jogar em 1949, porém ele liderou a seleção australiana em diversos The Ashes [1], o que lhe deu bastante fama e chegou a ser considerado herói do país.
Vida:
Donald George Bradman nasceu em 27 de agosto de 1908 em Cootamundra, Nova Gales do Sul, Austrália. Ele era filho de George e Emily Bradman, sendo que ambos tinham ancestralidade inglesa, e ele tinha mais um irmão, Victor, e três irmãs. Em 1911, quando Bradman tinha cerca de dois anos e meio, seus pais decidiram se mudar para Bowral, perto da família e amigos de Emily em Mittagong, pois a vida em sua cidade anterior estava se mostrando difícil. Emily, que jogava críquete como left-arm spin [2], jogou na competição intercolonial feminina de críquete na década de 1890.
Então desde pequeno o jovem Don teve contato com o críquete, e em sua infância costumava praticar rebatidas usando uma bola de golfe. Em 1920, aos 12 anos, ele começou formalmente no críquete ao jogar pela Bowral Public School num jogo contra a Mittagong High School, e marcar 115 corridas, uma marca incrível para um adolecente. O treinador de seu time na escola era seu próprio tio, George Whatman. No ano seguinte Bradman foi pela primeira vez ao Sydney Cricket Ground (SCG) para assistir ao The Ashes daquele ano, onde fez como meta para sua vida jogar naquele estádio.
Em 1922 Bradman deixou a escola e um agente local o convenceu a jogar tênis, e por dois anos ficou afastado do críquete, mas voltou a jogar em 1925, quando soube de uma seleção que estavam fazendo para o time de Bowral, e após ingressar no time, que fazia jogos contra times de outras vilas locais, num jogo contra o time da vila de Wingello, Bradman marcou 234 corridas e depois contra o time de Moss Valley ele marcou 320 corridas sem ser eliminado. Isso começou a chamar a atenção daqueles que o viam.
Em 1926, o time australiano, que contava com muitos jogadores com idade avançada para o esporte, perdeu o The Ashes na Inglaterra e vários jogadores de Test se aposentaram, e assim a New South Wales Cricket Association (NSWCA) começou a procurar por novos talentos. Conhecendo as grandes pontuações de Bradman nos jogos locais, a associação escreveu para ele, solicitando sua presença numa sessão de treinos em Sydney. Ele foi escolhido para os torneios “Country Week” tanto de críquete quanto de tênis, a serem disputados em semanas separadas, porém ele escolheu jogar apenas críquete, para não ficar muito tempo afastado do trabalho e ser demitido.
Em 1927, com 19 anos, Bradman fez sua estréia no first class [3], jogando no estádio de Adelaide. Já no ano seguinte ele se mudou para Sydney, onde aconteceria mais um jogo da série dos Ashes, e ali ele conseguiu jogar pela primeira vez na seleção australiana. Jogando apenas na décima partida de first class da Austrália na série, Bradman considerou seu test inicial uma experiência de aprendizado difícil. A Austrália perdeu por 675 corridas (ainda um recorde no test). Após baixas pontuações Bradman foi para a reserva no seu segundo test, porém a sorte estava do seu lado, uma lesão de Bill Ponsford (1900–1991) no início da partida exigiu que Bradman entrasse em campo como substituto, enquanto a Inglaterra acumulava 636 corridas, após suas 863 corridas no primeiro teste.
Bradman se tornou o jogador mais jovem a alcançar 100 corridas num Test, embora a partida ainda estivesse perdida. Outra derrota se seguiu no quarto test, onde Bradman chegou a 58 corridas no segundo inning e parecia pronto para guiar o time à vitória quando foi eliminado, mas a margem de derrota foi de apenas doze corridas. Bradman completou a temporada de 1929 com 1690 corridas, e com isso foi chamado para o tour da seleção na Inglaterra em 1930. As vitórias que a Austrália conseguiu nessa viagem a Inglaterra não apenas transformaram Bradman em um herói no país, mas também fez com que as economias da Austrália melhorassem em plenos anos da Grande Depressão.
Bradman acumulou mais corridas e vitórias quando aos Índias Ocidentais visitaram o país para jogos entre 1930 e 1931, e o povo lotava os estádios para o ver jogar. Na visita da Inglaterra a Austrália em 1931, diante das derrotas anteriores, os ingleses empregaram novas estratégias contra os australianos, estratégias essas que ficaram conhecidas como Bodyline. A bodyline era um jogo muito agressivo, muito parecido ao estilo de jogo que as Índias Ocidentais adotariam futuramente nas Copas do Mundo de 1975, 1979 e 1983, com bolas arremessadas para quicar alto e acertar a cabeça do adversário e o amedrontar. Nos primeiros jogos que os ingleses usaram essa estratégia Bradman não jogou, pois estava brigado com a Australian Board Control (a federação de críquete australiana, atual Cricket Australia), e isso fez com que a torcida clamasse por Bradman para derrotar os ingleses. Bradman retornou triunfante e conseguiu derrotar a bodyline mais de uma vez.
Bradman continuou jogando até 1940 pela seleção, mesmo passando por problemas de saúde entre os anos de 1934 e 1936 devido a idade começar a chegar. Com o início da II Guerra Mundial em 1939 os jogos começavam a ser paralisados, e Bradman acabou entrando para a força aérea australiana no final de junho de 1940. Mas ele acabou sendo dispensado dos serviços militares um ano depois, e até o fim da guerra em 1945 não jogou, e acabou acumulando dívidas financeiras. Na temporada de 1945 e 1946 Bradman sofria muito de dores musculares devido a uma fibrose adquirida, ele já estava com 37 anos na época e havia sido um atleta de alto rendimento por 12 anos consecutivos, algo que era bem difícil na época, pois a medicina esportiva ainda era pouco avançada. Ainda assim naquela temporada Bradman jogou uma série pelo time South Australia contra uma seleção militar do país.
Apesar de ser apenas um fantasma do que foi no passado, Bradman voltou a seleção em 1946 durante um tour da mesma na Nova Zelândia, e depois participou da série de Ashes de 1946 e 1947. Já na temporada seguinte, 1947 e 1948, Bradman atuou por sua seleção quando a Índia fez seu primeiro tour na Austrália, na época a seleção indiana era relativamente nova, o país havia ganhado a independência um mês antes do tour, que começou em novembro de 1947, e sua seleção havia conseguido o status de test a apenas 15 anos antes, em 1932. Esse jogo foi importante pois nele Bradman atingiu a marca da centésima partida em que ele marcaria mais de 100 pontos, mesmo longe de sua antiga forma física, Bradman ainda era um fenômeno.
Em 1948 Bradman jogou seus últimos jogos pela seleção australiana, e naquele ano ainda pode participar de uma série de 4 vitórias de sua seleção contra os ingleses no Ashes, o que deu aos australianos o apelido de “invencíveis”. Bradman se aposentou do críquete profissional naquele ano de 1948, entre os anos que atuou pela seleção, de 1928 a 1948, Bradman jogou 52 partidas de test e marcou mais de 6 mil corridas, um verdadeiro fenômeno. Bradman ainda jogou mais uma partida amadoramente em março de 1949, quando arremessou pelo time de South Australia contra o time do estado de Victoria, e depois disso ele parou de jogar completamente.
A década seguinte ele usou para escrever sua auto-biografia, “Farewell to Cricket”, publicada em 1950. Em 1958 ele publicou um dos grandes manuais do esporte, o livro “The Art of Cricket”, usado no mundo todo. Ele voltou a morar em Bowral em 1976, e o estádio local recebeu seu nome em sua homenagem. Em 1984 ele ainda viu seu livro e sua vida se tornarem uma série de televisão, “Bodyline”, e em 1987 pode ver a Austrália ganhar seu primeiro título da Copa do Mundo de Críquete, e passou a admirar muito o jogador Shane Warne (1969–2022), um dos maiores jogadores australianos na década de 1990.
Depois da morte de sua esposa em 1997, a saúde de Bradman piorou muito, e no final do ano de 2000 ele adquiriu pneumonia, e foi hospitalizado em dezembro daquele ano. Infelizmente seu já velho e cansado corpo não agüentou aos tratamentos e ele morreu em 25 de fevereiro de 2001, aos 92 anos de idade. Após sua morte Bradman foi eleito o melhor jogador de críquete do mundo no século XX por revistas especializadas. Bradman foi um dos grandes jogadores do Ashes, e após sua aposentadoria o rendimento da seleção australiana decairia muito até passar por uma renovação na década de 1980.
NOTAS:
[1] Nome dado ao clássico Austrália vs Inglaterra.
[2] Tipo de lançador canhoto que ao lançar a bola ela quica para a direita, efeito contrário ao braço que lançou.
[3] Formato de jogo que dura 3 dias.
FONTES:
https://cricketthrills.com/sir-donald-bradman-cricketer/
BALDWIN, Mark. The Ashes' Strangest Moments: Extraordinary But True Tales from Over a Century of the Ashes, Franz Steiner Verlag, 2005.
DAVIS, Charles. The Best Of the Best: A New Look at the Great Cricketers and Changing Times, ABC Books, 2000.
HARTE, Chris. A History of Australian Cricket, André Deutsch, 1993.
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